Segurança Alimentar na Amazônia em Movimento

A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) é o direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis

O que é Amazônia? O que se come na Amazônia e porque? O que é Segurança Alimentar? O que é Insegurança Alimentar? foram as perguntas que nortearam as oficinas realizadas pelo projeto Segurança Alimentar na Amazônia - uma iniciativa do Coletivo Sapato Preto voltada para jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica dos bairros Guamá e Terra Firme. As oficinas buscam promover conhecimentos e práticas sobre segurança alimentar e nutricional, alimentação saudável, acessível e de baixo custo, valorização dos alimentos amazônicos, reaproveitamento integral e redução do desperdício. No dia 03/10, foi realizada uma oficina em parceria com a iniciativa para abordar as temáticas, de forma criativa e pelo olhar dos participantes, em formato de zines.

A alimentação é o jeito que o mundo se organiza!

As oficinas sobre Segurança Alimentar e Nutricional na Amazônia foram um exercício profundo de repensar como a comida chega até os nossos pratos e o que ela de fato representa para a saúde, cultura e meio ambiente da região. Na primeira oficina, fomos desafiados a olhar além do conceito tradicional e urbano de Segurança Alimentar (SAN) e Insegurança Alimentar (INSAN), que costuma equiparar o acesso à comida exclusivamente ao poder de compra e ao dinheiro no bolso. Compreendemos que a realidade amazônica funciona em outra lógica que une o dinheiro à produção agrícola, ao autoconsumo e às práticas ancestrais de extrativismo e compartilhamento em comunidade.

Conhecemos a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) e suas adaptações para que considere a perda de recursos tradicionais e não apenas a escassez monetária. Além disso, fomos provocados a entender na prática como é medida e vivenciada a insegurança ou segurança alimentar e como as políticas públicas chegam até a as populações na ponta.

Dando continuidade a essa jornada, a segunda oficina aprofundou o debate sobre as transformações do nosso sistema alimentar e o impacto silencioso, porém devastador, dos produtos ultraprocessados no cotidiano. Refletimos sobre como a rotina corrida, o cansaço e as desigualdades estruturais que impactam no preparo de refeições saudáveis e caseiras têm nos afastado da "comida de panela" e empurrado rumo à "comida de pacote". Com o auxílio da Classificação Nova e das diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, entendemos que o problema não está apenas nos nutrientes isolados, mas no nível de processamento industrial que transforma substâncias baratas — como derivados de milho, soja e amidos — em mercadorias hiper palatáveis repletas de aditivos químicos.

Esse cenário é agravado pela formação de desertos e pântanos alimentares nas cidades e comunidades, onde o acesso a alimentos frescos é substituído pela superoferta de produtos industrializados nocivos à saúde, gerando um ciclo alarmante de obesidade e doenças crônicas.

As oficinas deixaram uma mensagem clara: resgatar a soberania alimentar na Amazônia exige proteger o território, valorizar a sociobiodiversidade e frear a monotonia agroalimentar que empobrece tanto a nossa terra quanto a nossa saúde.

Texto por: Juliana Cardoso e Letícia Luz

 

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